terça-feira, 20 de março de 2018

A Festa





aço e curva o
riso cínico
(caninos expostos
sugando séculos)

tudo em nome
da de
usa bélica
montada em bancos
brancos e velhos

condes crápulas
as(sas)sinando
loas e leis
nem limpam mais
as lamas das mãos
estão matando
à torto, a direita

um país brasil
queimando corpos
apagando provas
nomeando morte
mantendo
abastecimento de bostas

há sol e chuva
em tons de veneno
sob a pele 

ainda que se grite
ainda que se cante
a capital importa
força e fome
amacia carne mafiosa
aquece mesquinharias
confessa a festa

dorme com essa

A imagem pode conter: céu e atividades ao ar livre

quinta-feira, 15 de março de 2018

A casca de nós


Nenhum texto alternativo automático disponível.
Duas imagens acompanham minha infância, vindas sabe-se lá de que distância do tempo ou do espaço, repetindo em ondas um anseio: quero um escritório e um laboratório. Desejava, antes mesmo de saber efetivamente as primeiras letras, que me tornaria escritor e cientista, anda que não soubesse exatamente o que esses dois faziam. Não eram vontades gêmeas: escrever nasceu primeiro e não gostava da ideia de ser vontade única. Provavelmente do olhar de espanto diante da existência, inventei de ser cientista. Entrava em silêncio reverencioso no apertado laboratório da escola pública, onde jaziam em potes de vidros diversos exemplares de cobras e sapos (creio que todo viviam na lama do brejo que servia de assento à escola).

Quando finalmente fomos morar em uma casa com um quintal lateral, meu pai providenciou um laboratório feito de madeiras velhas e papelão. Um resto de estante guardava maçarocas de folhas, misturas de produtos de limpeza e anotações de observações aleatórias. Naquele instante, escrever perdeu a força. O que interessava era descobrir do que era feito o mundo, o que havia além da lua, pensar como alguém vivia em paz sabendo de nossa pequeneza espacial, de nosso rodopiar do nada ao nada. Era disfarçada de teologia a filosofia que já ameaçava nascer em mim.

Foi quando cheguei ao Fundamental II, aquele momento da escola em que uma única professora não era o suficiente para caber todo conhecimento. Surgiram disciplinas que desconhecia: física, química, biologia. Matemática. A existência dos números em meio ao X, ainda hoje é, para mim, um absurdo da linguagem. O que tem um X que se meter com números? A matemática jamais fez parada em mim, no máximo passava correndo, deixava cair uma ou outra equação que eu teimava em guardar, mas logo acabava no limbo do esquecimento. E a passagem dos anos só fez piorar minha relação com o que almejava: embora fosse ainda atraído pela ciência, ela me desprezava, com seus múltiplos braços numéricos, seus olhos de hipotenusa. A Força-Escritura ganhou velocidade e me encheu de energia, gritando: faça isso.

Muito depois, já fazendo teatro, estudando artes, rascunhando frases, descobri a poesia. E com ela (prima-irmã da filosofia que também ganhava corpo), encontrei modos de dar forma aos meus pasmos. Continuei um investigador, não mais lidando com frações, mas dançando teorias, sons e figuras. Penso que se tivesse estudado em uma escola de melhor qualidade; se tivesse mais paciência comigo e com os números; se tivesse outros tantos Se’s, talvez tivesse me tornado um cientista de exatas, um geólogo, neurocientista. Não me ocorriam as Ciências Humanas, pois nada que era humano me parecia passível de se tornar científico.  Entendia o ser humano como meio, isso é, estava entre o absolutamente minúsculo - dos átomos e bactérias – e o infinitamente gigantesco dos buracos negros e dimensões.

Nem por isso virei a cara para quem eu queria. Continuei vendo documentários, lendo artigos, livros. Chegaram a mim as falas afetivas de Carl Segan, Neil deGrasse Tyson e Stephen Hawking, físicos que beiravam a poesia quando explicavam conceitos; ao lado deles, vieram Haroldo de Campos, Ferreira Gullar, João Cabral de Melo Neto, poetas da matéria, que por vezes sopram conceitos científicos. Nessa alquimia descobri que não estava tão longe, havia uma ligação nessas relações: a escrita nasceu com a ciência, para mim, dos mesmos assombros. E esse vínculo abarcava, sobretudo, a humana percepção de saber-se travessia num mistério sem fim.

Talvez seja mesmo infinito o universo, no entanto não o tempo da vida. Hoje morreu Stephen Hawking, depois de passar a maior parte da existência assolado por uma doença que o fechou fisicamente, mas expandiu sua mente para recônditos do cosmos. Morreu no mesmo dia em que, no Brasil, se comemora (ou já se comemorou? há o que se comemorar?) o Dia Nacional da Poesia. E esse vínculo, cogito, deve ser parte da teoria de tudo.