quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A-for(ma)ismos



Deve ser porque eu seja mais poeta que "filósofo" (assim me considero), mas tenho aversão, devido minhas influências leminskianas, à todo texto longo onde se diz muito para se chegar à uma idéia que poderia ser dita em um haicai.
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Tenho gosto pela palavra incerta, pelo logos cortante, pela faísca polissêmica, pela obra aberta.
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Por isso adoro aforismos: Nietzsche, Walter Benjamin, Kafka, Wittgenstein, Millôr Fernandes (afinal, o que é filosofia?).
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O aforismo, assim como o ensaio, é o encontro do poético, do literário e do filosófico.
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Ao tentar se desvencilhar do modo científico e da racionalidade instrumental, a forma de se expôr idéias filosóficas deve - ou deveria - ser diferente da tradicional. Entretanto, a academia ainda preza por artigos científicos, mesmo que seja para criticá-los...
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Adorno expôs muito bem esta noção em seu ensaio sobre o Ensaio como Forma.
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Mas mesmo o ensaio, a forma livre de exposição de pensamento e de reflexão sobre uma experiência de mundo, foi confiscado pela universidade.
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Uma revolução de paradigmas passa necessariamente pela revisão da linguagem.
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O documentário contemporâneo pode ser também uma forma de ensaio? E os textos rápidos de blogs? (#) E outras formas de filosofia, como seriam? (afinal, o que é filosofia?)
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Aforismo tem receita? Duas doses de razão, uma pitada de intuição? A frase que apresenta este blog é um aforismo-poema de Manoel de Barros, um gigante na arte do mínimo. O texto completo segue abaixo:

O Livro sobre Nada
Manoel de Barros

. Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.

. Tudo que não invento é falso.

. Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.

. Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.

. É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.

. Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.

. Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.

. A inércia é o meu ato principal.

. Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.

. O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.

. A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.

. Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.

. Por pudor sou impuro.

. Não preciso do fim para chegar.

. De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.

. Do lugar onde estou já fui embora.
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(#) Escrevi e postei um texto sobre isso no blog do NIS: http://insolita2.blogspot.com/2009/07/apontamentos-para-futura-tese-ou-p-msg_01.html

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