terça-feira, 15 de setembro de 2009

Transplante

Não deveria ser estranho falar sozinho. Assim, como quem canta baixo, sem ser incomodado, às vezes gosto de cantar poemas, só pelo simples prazer das palavras. Sem mais nem porquê - como diria Chico Buarque - eu estou hoje, o dia todo, cantando um poema da Kelly Guimarães, uma colega lá da Filosofia. Um poema que em seu minimalismo, sua linguagem certeira, diz tanto em pouca coisa, tão ao contrário da filosofia oficial; segue abaixo o poema, cantem comigo:


POHEMORRAGIA
.
plasma
o corpo é hábito.
há tanto habito este
já me habituei
.
plaquetas
enlutar-se
algo morre em mim, comigo, no meu mundo
e luto
.
linfócito
eu
objeto estranho e deslocado
silencia
dentro
.
protrombinas
são os outros.
eu não há. encontro
o outro que só há em
quando eu
não-eu
negação
ausência
o que se apartou de mim
eu não preenchido
e
fr a gme nt aç a ~ o
.
sal
há tempos não lavo meus sapatos
estou arrastando comigo todos os caminhos
.
água
acho que quero maluquecer
o crime não compensa
a sanidade também não
.
e tem mais textos dela no link ao lado: caderno de escrita

2 comentários:

  1. por isso tento
    insistente
    por uma gota de poema
    em cada sangue

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  2. "uma gota de poema em cada sangue"
    lindo,
    rico!
    abraço tadeu

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