"Sem dúvida que cada geração se supõe votada a refazer o mundo. A minha sabe, contudo, que não o refará. mas a sua tarefa talvez seja maior. consiste em impedir que o mundo se desfaça. Herdeira de uma história corrompida, em que se misturam as revoluções falhadas, as técnicas que se tornaram loucas, os deuses mortos e as ideologias esgotadas, em que medíocres poderes podem hoje tudo destruir mas já não sabem convencer, em que a inteligência se rebaixou até fazer-se serva do ódio e da opressão, esta geração teve que, em si mesma e à sua volta, restaurar, apenas a partir de suas negações, algo do que faz a dignidade de viver e de morrer. Em face de um mundo ameaçado de desintegração, em que os nossos grandes inquisidores se arriscam a estabelecer para sempre o reino da morte, ela sabe que deveria, numa espécie de doida corrida contra-relógio, restaurar entre as nações uma paz que não seja a da servidão, reconciliar de novo trabalho e cultura e voltar a fazer com todos os homens uma arca da aliança."
Albert Camus - discurso da suécia, 1957
Artes Visuais
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
A-for(ma)ismos
Deve ser porque eu seja mais poeta que "filósofo" (assim me considero), mas tenho aversão, devido minhas influências leminskianas, à todo texto longo onde se diz muito para se chegar à uma idéia que poderia ser dita em um haicai.
*
Tenho gosto pela palavra incerta, pelo logos cortante, pela faísca polissêmica, pela obra aberta.
*
Por isso adoro aforismos: Nietzsche, Walter Benjamin, Kafka, Wittgenstein, Millôr Fernandes (afinal, o que é filosofia?).
*
O aforismo, assim como o ensaio, é o encontro do poético, do literário e do filosófico.
*
Ao tentar se desvencilhar do modo científico e da racionalidade instrumental, a forma de se expôr idéias filosóficas deve - ou deveria - ser diferente da tradicional. Entretanto, a academia ainda preza por artigos científicos, mesmo que seja para criticá-los...
*
Adorno expôs muito bem esta noção em seu ensaio sobre o Ensaio como Forma.
*
Mas mesmo o ensaio, a forma livre de exposição de pensamento e de reflexão sobre uma experiência de mundo, foi confiscado pela universidade.
*
Uma revolução de paradigmas passa necessariamente pela revisão da linguagem.
*
O documentário contemporâneo pode ser também uma forma de ensaio? E os textos rápidos de blogs? (#) E outras formas de filosofia, como seriam? (afinal, o que é filosofia?)
***
Aforismo tem receita? Duas doses de razão, uma pitada de intuição? A frase que apresenta este blog é um aforismo-poema de Manoel de Barros, um gigante na arte do mínimo. O texto completo segue abaixo:
O Livro sobre Nada
Manoel de Barros
Manoel de Barros
. Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.
. Tudo que não invento é falso.
. Tudo que não invento é falso.
. Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
. Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
. É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
. Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.
. Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.
. A inércia é o meu ato principal.
. Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
. O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
. A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
. Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
. Por pudor sou impuro.
. Não preciso do fim para chegar.
. De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.
. Do lugar onde estou já fui embora.
***
(#) Escrevi e postei um texto sobre isso no blog do NIS: http://insolita2.blogspot.com/2009/07/apontamentos-para-futura-tese-ou-p-msg_01.html
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Transplante
Não deveria ser estranho falar sozinho. Assim, como quem canta baixo, sem ser incomodado, às vezes gosto de cantar poemas, só pelo simples prazer das palavras. Sem mais nem porquê - como diria Chico Buarque - eu estou hoje, o dia todo, cantando um poema da Kelly Guimarães, uma colega lá da Filosofia. Um poema que em seu minimalismo, sua linguagem certeira, diz tanto em pouca coisa, tão ao contrário da filosofia oficial; segue abaixo o poema, cantem comigo:
POHEMORRAGIA
.
plasma
o corpo é hábito.
há tanto habito este
já me habituei
.
plaquetas
enlutar-se
algo morre em mim, comigo, no meu mundo
e luto
.
linfócito
eu
objeto estranho e deslocado
silencia
dentro
.
protrombinas
são os outros.
eu não há. encontro
o outro que só há em
quando eu
não-eu
negação
ausência
o que se apartou de mim
eu não preenchido
e
fr a gme nt aç a ~ o
.
sal
há tempos não lavo meus sapatos
estou arrastando comigo todos os caminhos
.
água
acho que quero maluquecer
o crime não compensa
a sanidade também não
.
e tem mais textos dela no link ao lado: caderno de escrita
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
ELT - escola "livre" de teatro
Denúncia! Espalhem!
A Escola Livre de Teatro, projeto artístico-pedagó gico que se afirmou como referência para a formação de atores no Brasil e que se aproxima agora dos seus 20 anos de enraizamento na cidade de Santo André, acaba de sofrer um golpe violento: seu coordenador, o ator Edgar Castro, foi sumariamente demitido – para que novamente se plante a velha e já conhecida política de desmantelamento dos quadros críticos que ali atuam e que têm conduzido com diferencial criativo a trajetória da Escola.
É assustador, mas nada novo: foi exatamente assim que as coisas aconteceram há aproximadamente dezessete anos atrás, quando houve a chegada do prefeito Newton Brandão (PSDB) ao poder. Este prefeito e seus secretários brutalizantes realizaram a mesma operação de desmanche da ELT agora proposta – criando intervenções absurdas e condições precárias de trabalho que feriram frontalmente a manutenção de seu projeto pedagógico.
Um projeto contundente como este (radical desde seu nascedouro, quando foi parido pela artista Maria Thaís Lima Santos, hoje professora doutora da USP; e coerentemente transformado pela experiência, pelos seus diversos mestres, em todos estes anos), para se preservar, não pode dialogar com a descarada mediocridade de idéias e, muito menos, com a mera reprodução de modelos falidos que vigoram nos sistemas educativos corriqueiros.
A ELT nasceu e sempre foi diferente e é justamente sua diferença o que lhe confere os louros amplamente colhidos como “projeto que deu certo na cidade de Santo André” e que se tornou referência nacional de ensino de teatro (hoje, chegam pessoas de todo o país para estudar na Escola Livre).
Não bastasse a plena e profunda desaprovação de toda a comunidade da Escola em relação a esta atitude autoritária, o que se percebe claramente é o sucateamento do projeto radical de formação de atores (que sempre esteve baseado no diálogo e na autonomia criativa – daí o nome “Livre” que lhe consagrou).
Para piorar a situação, a atual Secretaria de Cultura (que se gaba por produzir festas com música sertaneja na cidade) quer fazer engolir, de cima pra baixo e irresponsavelmente, o descarado clientelismo, impondo como figura de liderança para a Escola uma amiga de infância do atual prefeito do PTB, Dr. Aidam. Esta senhora, uma desajeitada tal de Eliana Gonçalves, é pessoa absolutamente desqualificada para ocupar tão função e completamente desconhecida nos meios teatrais (diferença brutal em relação aos atuais mestres).
Que uma prefeitura não tenha bons projetos culturais, especialmente quando eleita de supetão e susto, é até comum. Mas quando a falta de projeto vem acompanhada de corrupção (quase nepotismo!) e mediocridade, é ponto revoltante que deve ser comunicado a toda a comunidade, na imprensa e no boca-a-boca (especialmente em casos como este, já que o prefeito Dr. Aidam prometeu, em sua posse, manter vivos os projetos que funcionassem bem na cidade).
Hoje a Escola Livre de Teatro recebeu um duro golpe. Mas quem sai machucada mesmo é a cidade de Santo André. Começamos a ver o rosto do lobo por trás da máscara de cordeiro!
A Escola Livre de Teatro, projeto artístico-pedagó gico que se afirmou como referência para a formação de atores no Brasil e que se aproxima agora dos seus 20 anos de enraizamento na cidade de Santo André, acaba de sofrer um golpe violento: seu coordenador, o ator Edgar Castro, foi sumariamente demitido – para que novamente se plante a velha e já conhecida política de desmantelamento dos quadros críticos que ali atuam e que têm conduzido com diferencial criativo a trajetória da Escola.
É assustador, mas nada novo: foi exatamente assim que as coisas aconteceram há aproximadamente dezessete anos atrás, quando houve a chegada do prefeito Newton Brandão (PSDB) ao poder. Este prefeito e seus secretários brutalizantes realizaram a mesma operação de desmanche da ELT agora proposta – criando intervenções absurdas e condições precárias de trabalho que feriram frontalmente a manutenção de seu projeto pedagógico.
Um projeto contundente como este (radical desde seu nascedouro, quando foi parido pela artista Maria Thaís Lima Santos, hoje professora doutora da USP; e coerentemente transformado pela experiência, pelos seus diversos mestres, em todos estes anos), para se preservar, não pode dialogar com a descarada mediocridade de idéias e, muito menos, com a mera reprodução de modelos falidos que vigoram nos sistemas educativos corriqueiros.
A ELT nasceu e sempre foi diferente e é justamente sua diferença o que lhe confere os louros amplamente colhidos como “projeto que deu certo na cidade de Santo André” e que se tornou referência nacional de ensino de teatro (hoje, chegam pessoas de todo o país para estudar na Escola Livre).
Não bastasse a plena e profunda desaprovação de toda a comunidade da Escola em relação a esta atitude autoritária, o que se percebe claramente é o sucateamento do projeto radical de formação de atores (que sempre esteve baseado no diálogo e na autonomia criativa – daí o nome “Livre” que lhe consagrou).
Para piorar a situação, a atual Secretaria de Cultura (que se gaba por produzir festas com música sertaneja na cidade) quer fazer engolir, de cima pra baixo e irresponsavelmente, o descarado clientelismo, impondo como figura de liderança para a Escola uma amiga de infância do atual prefeito do PTB, Dr. Aidam. Esta senhora, uma desajeitada tal de Eliana Gonçalves, é pessoa absolutamente desqualificada para ocupar tão função e completamente desconhecida nos meios teatrais (diferença brutal em relação aos atuais mestres).
Que uma prefeitura não tenha bons projetos culturais, especialmente quando eleita de supetão e susto, é até comum. Mas quando a falta de projeto vem acompanhada de corrupção (quase nepotismo!) e mediocridade, é ponto revoltante que deve ser comunicado a toda a comunidade, na imprensa e no boca-a-boca (especialmente em casos como este, já que o prefeito Dr. Aidam prometeu, em sua posse, manter vivos os projetos que funcionassem bem na cidade).
Hoje a Escola Livre de Teatro recebeu um duro golpe. Mas quem sai machucada mesmo é a cidade de Santo André. Começamos a ver o rosto do lobo por trás da máscara de cordeiro!
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