quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O Ab Surdo Não H Ouve*

Dia 04 de janeiro de 1960, numa estrada reta, de boa visibilidade, num dia de sol, o carro que transportava Albert Camus se chocou contra uma árvore. Morreu o escritor, que trazia consigo os esboços originais de um novo romance, O Primeiro Homem. Neste livro quase auto biográfico, há páginas que o escritor conta sua primeira visita, com 40 anos, ao túmulo de seu pai, sepultado no cemitério de guerra de Saint-Brieuc. No impacto com o túmulo “daquele desconhecido”, seus sentimentos ficam paralisados, condicionando até a prosa. Mas em seguida um remorso o penetra com a naturalidade de um respiro e transforma sua emotividade congelada num canto: “No entanto, tudo o que procurara avidamente saber através dos livros e das pessoas, todo o seu segredo parecia-lhe agora ter ligação com aquele morto, com aquele pai caçula, com o que ele havia sido e em que se tornara, e que ele próprio procurara bem longe o que estava perto de si no tempo e com o sangue”


O absurdo da situação é o encontro do filho, o escritor de 40 anos, como o pai, que morreu com menos idade. O filho mais velho que o pai. Dia 04 de janeiro de 2010 fez 50 anos da morte de Camus, mais tempo do que teve de vida, 47 anos. Nas palavras do autor :


"A característica do homem absurdo é não acreditar no sentido profundo das coisas. Ele percorre, armazena e queima os rostos calorosos ou maravilhados. O tempo caminha com ele. O homem absurdo é aquele que não se separa do tempo".


*O título deste texto é um poema de Walter Franco.

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