sábado, 1 de maio de 2010

Da Saudade

Tânia olhava de canto os pares deslizando no salão. Ajeitava com as pontas dos dedos os vincos do vestido, as dobras de algodão carinhando as rugas das mãos. Não tinha interesse em dançar, não bailava desde que o Justino morrera, aquele sim um pé-de-valsa, como se dizia. A amiga insistiu, vamos, você se alegra, vê pessoas. Sete anos de luto, não carregava dores em público, mas exibia a viuvez em cada começo de conversa, no tempo que o Justino dançava. Não, obrigada, só estou olhando. Era o terceiro convite que ela recusava, a amiga suando de tanto rodar, Tânia andando pelo salão a fim de disfarçar, buscar algo para beber.

A banda deu os primeiros acordes, o sanfoneiro soprou a Saudade de Matão. A memória rodou nos olhos dela, o Justino puxando ela para a valsa, a promessa de uma vida boa, de uma lua nova, quando lá no céu surgir uma peregrina flor. O homem se aproximou e lhe estendeu a mão. A viúva ameaçou dispensar o cavalheiro de terno alinhado e antigo, mas ao levantar a mão, este entendeu como um sim. Quando deu por si, ela rodava como antigamente, sentia o perfume do homem, ria do descompasso, os pés que não se encontram, igual a qualquer primeira passeio.

Terminaram o baile conversando, ela sabendo que seu nome era Lázaro, que também perdera a esposa há muito, que era sapateiro. Ele ainda insistia em saber dela, mas ela bailava, girava, acertava o passo contrário. Nem o nome dizia. A banda anunciou o fim do baile, a amiga chamando. Já vou. Já? Obrigada pela dança, seu Lázaro. E eu te chamo como, dona Saudade? Fica assim mesmo, disse entre dentes, um sorriso que Lázaro julgou mimoso. O senhor de cabelos ralos pegou o guardanapo que ela dispensava na mesa e anotou seu nome e telefone. Quem sabe mais uma dança, domingo que vem. Ela sorriu novamente e saiu, olhando de soslaio para trás, ele acenando timidamente.

Na porta do clube, Tânia cantarolava a valsa. O mundo dançava, Lázaro bailava. A noite estava no começo, a lua nova ponteava estrelas, Justino dançava. Tânia apertou com força o papel sobre o colo. Em uma imagem grotesca o enfiou todo na boca e mordeu com força, engolindo-o. Domingo seguinte iria ao cemitério. Ao parque de flores, dependendo do tempo.


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