domingo, 11 de julho de 2010

DOMINGO

Gente conversando na calçada, culto nas igrejas, futebol e cerveja, vestido de namorada. Porque hoje é domingo.

Tem sala de bate-papo procurando alguém, dois meninos pedindo cinqüenta centavos no trem, deus descansando na rede ouvindo São Paulo cantar. Porque hoje é domingo, Vinicius de Moraes não compõe mais, mas o Samba de Ossanha assanha as árvores do centro.

Trabalhadores estão dormindo, porque hoje é domingo.

O comércio está fechado, os ônibus cansados de gente lotada, a tarde de inverno está limpa, um homem grita ao telefone bagunçando o que digo. Porque hoje é domingo, pede cachimbo.

Continuemos fingindo. Porque hoje é domingo. O suor em pingos. Porque hoje é domingo. A ferida prorrogada do mendigo. Porque hoje é domingo. Felicidade rodada no bingo. Porque hoje é domingo. Um poema já antigo. Porque hoje é domingo. Cabeleira com vermelho tingido.

Porque hoje é domingo, tem festa junina, enterro, carnaval. Tem uma viola ponteando o natal. Amanhã é segunda seca, mesmo que chova pedra, ainda que se perca a hora e lá fora um amigo espera abrigo.

É domingo e os anos vão se indo, rindo alto, o rio daquela cidade continua lindo. Ninguém atende quem quase explode. Neste dia tudo diz: cansa correr dançar nascer toda semana. Anda, que agora é fazer plano, porque hoje é domingo e todo domingo é feito ano-novo, mais promessas e bandeiras que serão sustentadas com afinco até – quem sabe – quinta feira. O regime, a revolução, a fé no feriado prolongado que trará a paz prometida para hoje. Porque hoje é domingo.

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