domingo, 29 de agosto de 2010

Conto sem nome (aceito sugestões)


Trancava apartamento com sono, pressa de pegar ônibus. Chave caiu quando vizinha anunciou, com algum pesar mal disfarçado pelos olhos afoitos em ser primeira no passar notícia: velho Ronaldo, do terceiro andar, se jogou pela janela.

Esqueci da hora marcada para pensar na incoerência deste fato: aquele aposentado que andava de muletas não tinha força suficiente, como garantiu a mensageira, para subir na pia da cozinha e saltar. Eu mesma vi e ouvi suas últimas palavras. Mulher ficou olhando, esperando que eu perguntasse quais foram. Como não manifestei interesse, segredou que o velho mirou cadela e disse: Guna, não vá cagar fora do lugar, viu? E pulou.

Apesar de compartilhar mesmo prédio por anos, era pouco que eu sabia sobre aquele senhor. Era vô de amigo na infância. Após aposentadoria, foi morar com a filha e a companheira desta. Vizinhos estranhavam aceitação irrestrita que o antigo professor de Física da escola técnica do Brás, conhecido pela rigidez de seus valores, dedicava à relação da filha. Logo se descobriu que o velho, atingido pela idade e pela esclerose, não atentava ao que ocorria, acreditando que tanto filha quanto nora, eram a mesma pessoa.

Ronaldo passava maior parte das horas sem contato humano, duas mulheres trabalhando dias e noites em enfermaria e secretaria de escola. Não ficava sozinho, sempre acompanhado da cadela recolhida na rua quando filhote.

Eventualmente os encontrava de passagem, Guna indo à frente, montando guarda e proclamando, feito arauto, chegada de seu amigo. Caminhavam para visitar o sol. Na falta e na impossibilidade de assunto, saudava-os com opa bom dia. Acontecia, por vezes, do velho não responder, quiçá por não querer ou por não conseguir formular resposta imediata. Entretanto, comum era seu habitual grunhido, quase nada de movimento labial, que sempre preferi crer como sorriso.

Quando deixava a mulher, descrente do que me contava, outro vizinho, o de baixo, subia escada assustado, verdadeiramente abatido pela confirmação da notícia.

Atravessei a tarde refletindo, sem interesse no princípio, e com mais intensidade conforme cogitava outras possibilidades sobre o que levava aquele homem ao derradeiro vôo. Solidão é motivo intenso, com certeza. Ou pressa em resolver as questões metafísicas nas quais estamos imersos. Desgosto com lembranças fantasiadas que lhe mostravam como esteve arredado de tantos desejos programados e deixados nos caminhos? Provavelmente Ronaldo, acostumado nos cálculos sobre a mecânica do universo, com memória e raciocínio recolhidos pelo tempo, não tivesse capacidade de tentar elucubrações diante do beiral do terceiro andar. Talvez.

Noite me devolveu casa. Subi andares no escuro, sinal de estranho respeito pelo acontecido. Contudo, frente ao apartamento do finado, arrepio daqueles da meninice, assombração diante das idéias, acendi luz abruptamente. Susto em ver, parado na escada, marido da vizinha anunciadora. Sem cumprimentar, olhava porta, suspirava. Lamentável, lamentável. Concordei estalando língua. Tsc, tsc. Que acidente terrível. Acidente? Pois é, disse o homem, foi apanhar toalha que voou pela janela da lavanderia, subiu no tanque e caiu. Não foi suicídio? Suicídio? Ela não tinha força para suicídio, escorregou por fraqueza.

Casal não se importava com presença do ex-professor no apartamento. Era de pouca conversa, quase não se notava seu estar. Agora, cadela era estorvo, destoante da pretensa arrumação do lar, avessa ao banho, mordia e chorava quando tentavam fazê-lo, no que era idêntica ao seu amigo. Cagava em qualquer canto, mas tinha preferência pelo centro da sala. Desejaram fazê-la circular até se perder, ou deixar na casa de conhecidos. Eram estes raros momentos de expressão que Ronaldo demonstrava ar agressivo e melancólico. Assim, contas acertadas com outros parentes, alugaram apartamento em frente, carregando-o com poucos móveis. Foi morar, Guna e o velho, assistidos diariamente pela filha, que fazia comida e limpava vez e outra o pai e o espaço.

Vai ao velório, perguntou o homem, interrompendo meu devaneio. Onde será? Ainda não confirmaram. Saí sem despedir, ele ainda suspirando nos degraus.

Demorei na cama, sonho avisando que chegaria com atraso. Sabendo da morte acidental, desconsiderei explicações existenciais, apegando em cogitações outras. Acidente. Sabendo disso, ficava menos patético o último discurso do suicida ser ordem pro animal não cagar no lugar errado.

Manhã chegou barulhenta, sábado aproveitado na limpeza, músicas vindas de andares diferentes, competindo por atenção. Desci patamares frios, vontade de pão ecoando na boca. No susto do hábito, cumprimentei Guna, que subia correndo, seguida pelo amigo ancião. A filha enfermeira vinha atrás. Gaguejei: Seu pai...Ele está melhor, obrigada. Não foi nada grave. Mas me disseram que ele, na janela. Isso mesmo, foi ao jardim atrás do prédio pegar toalha que voou pela janela e acabou tropeçando. Caiu, mas machucou pouco a perna, certo, pai? Ronaldo seguia adiante sem dar conta da conversa absurda que me enredava.

Vizinhos que encontrava fingiam nunca terem outra versão do ocorrido. Durante três meses não se falou mais no assunto, e eu não vi professor nem sua estimação no caminhar. Foram juntos a uma casa de repouso. Seu nome só me abrolhou meses depois, quando encontrei na porta do edifício papel pendurado, avisando sua morte. Agora é real, suspirava o abatido vizinho, que parecia gostar desse estado. Lamentável. Lamentável. Como foi? Corpo cansou de vez, concluiu. Vai ao velório?

Sem mais, subi um passo para cada dois degraus. Tranquei conversas com moradores, duvidoso desta nova variante. Com riso irônico engatilhado, passei semana vigilante a qualquer latido, pronto a desfazer mais um engano da vida.

2 comentários:

  1. Po Tadeu, me fez até parar com as rotinas chatas de uma segunda-feira. Chamaria seu texto de: "Ao meu amigo Jaime"

    Um beijo - ANA

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  2. fantástico... seu blog tah super ajudando a passa um dia de trabalho!

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