Artes Visuais

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Metáfora








AGRADECIMENTO
Fiz bem de partir e de me demitir de tudo aquilo que dá nome a um homem. Desincumbi-me de esboçar uma alma, de narrar uma história, de adquirir competência e de entrar no percurso das alienações.
Agradeço o vento esquivo que me varreu do mundo: ele me deu a perplexidade, o olho sem pálpebra e um coração abissal para ressoar a imensidão da noite sem resposta.

.Juliano Garcia Pessanha, em "InstabilidadePerpétua".

Poesia Infantil - EM MARTE














Em Marte tem um neném.

Uma manhã...

hã? Menino ou menina?

Não importa o nome

ou se é mulher

ou se é homem.

Importante mesmo é que é

um neném!

Ocupando a inteira metade

daquele mundo longe

a criança dorme

por muito tempo

e quando, lentamente,

amanhece seus olhinhos

(imensos),

a primeira intenção

é urinar, mijar, desaguar

divertidamente...

Mora sozinha, a criança:

não se conhece parente

a origem, ou mesmo o destino.

Se vem de Mercúrio

Netuno ou Plutão,

é uma informação

que o poema não encontrou.

De noite, quando tem fome,

carinhosamente

a Via Láctea o amamenta

enquanto Saturno canta

um ninar que embala,

transformando o sono em sonho.

Uma manhã, levantando

as pernas e o nariz,

reconheceu-se uma grande pessoa

no universo que desenhou

quando era

neném em Marte.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Curte conto curto?

Enigma

.

Com olhos de abismo, ela sussurrou:

- Decifra-me ou devoro-te.

Ele não a decifrou.

Mas anda muito feliz.


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Memórias no guardanapo

.

Uma corda arrebentou. Não estava preparado. Toquei a noite inteira sem mi.

*

Pedem samba, eu tenho. Popular? Mando três. Música de amor, hoje não, que me dói o coração.

*

Toco a noite com meu violão. Ela diz que está com a cabeça cheia de estrelas. Vira pro lado e dorme. Então improviso um solo.

*

Hoje acordei distante. Saía de um sonho confuso, cheio de culpas e gestos de carinho. Levantei tentando me esconder, mas da árvore que beira a janela da cozinha, a multidão de pássaro denunciava: bem-te-vi, já-te-vi. Passarinho filho da puta.

*

Ela não ligou. Fiquei rouco. Não fui trabalhar.