segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Dançando Filosofia



Minha aproximação da filosofia durante a faculdade foi feita de forma estética. Isso só percebi depois. Os autores me interessavam, antes mesmo do que pelas ideias, pelo estilo, pela prosa criativa que dava vida ao pensamento. Só depois de saborear as frases, cheirar conceitos e olhar com calma  as curvas de uma teoria, é que eu acertava o passo com o conteúdo em si. Escrevo agora no pretérito, mas ainda faço desta maneira. Assim foi com Platão, Santo Agostinho, Voltaire, Rousseau, Heidegger. Sem contar o poetas que cantam no coro dos pré-socráticos.

Sentia, durante o curso, falta de entender a filosofia não só conceitualmente, racionalmente, mas também por afetos e percepções. Não que me fosse podado (embora a Academia, como seus senões, tira a poesia de qualquer coisa), mas a sisudez do assunto assustava qualquer intenção de riso-reconhecimento. Foi então, numa destas reuniões tediosas, com Kant se embaraçando nos próprios argumentos, que entrou pelo salão, com um caos dentro de si, feito uma estrela dançante, que entrou Nietzsche, com seu bigode que me lembrou Leminski. O filósofo alemão rodou, cantou versos dionisíacos e me chamou pra dançar. Demasiado humano, saí pulando no baile. E no mesmo pulo, a filosofia contemporânea também decidiu dançar e surgiram coreografias as mais espantosas: o passo de Foucault, o caminhar de Walter Benjamin, o "tô nem aí" de Wittgenstein. Só então entendi: minha filosofia era uma filosofia de artista, feito a do bigodudo alemão. 

Meus passos dançantes me levam agora ao encontro de Deleuze, que além de me soprar fluxos dadaístas de pensamento, ainda me incentiva a continuar no devir. Sua filosofia tem alimentado meu fazer artístico de tal modo que voltar atrás é impossível. É preciso sempre novos movimentos para não perder a graça da dança. Afinal, o que mais há de se fazer?





3 comentários:

  1. TATEANDO SE VAI LONGE

    Alguém alemão observou que é por aí o melhor método de aproximação e digressões da filosofia e outras... devemos nos comportamos como um estrangeiro em terra alheia sem saber ler em seu idioma.
    Claro que uma vez namorando os conceitos e autores, um concurso, uma sistematização é obrigatória, mas não isso não quer dizer especialismo etc.
    Nietzsche exige uma certa bagagem conceitual e um exame, o mais rigoroso possível, da história. Ainda assim, uma leitura dos críticos de Frankfurt é recomendável.
    Nietzsche é uma pensador gênio... só existe dois Nietzsches... e isto não encontremos nas academias.

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  2. Demasiadamente Tadeus de si...
    Seu texto - xícara, fragmento, punhado, pedacinho de seu existir.
    Dança cheia de gracejos, dança de seus lugares.
    Devires não são deveres...
    Danças e devires que nos dobram em diferenças.

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  3. Lindo, lindo, Tadeu! Depois eu falo mais disso, mas ainda acho uma experiência irredutível dançar com Foucault até cair no chão, até beijar a lona. Depois a gente aceita o convite sedutor do Deleuze. Pq ele é mais sedutor, mas tem menos pegada. Hehe. De td modo, impossível voltar atrás.

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