Artes Visuais

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Abstrato & Figurativo

"Tanto em pintura como em música e literatura, tantas vezes o que chamam de abstrato me parece apenas o figurativo de uma realidade mais delicada e mais difícil, menos visível a olho nu." - Clarice Lispector
Kandinsky

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Dia novo

Um passo, um guizo, um gozo, um enguiço,
um maço. Pisca-letras. Vida passa com tantos cantos, anchos, manchas que não usamos e não somos ou será
que assomos? Oh, manda o columbiforme para erídano
e na retornança um dança de zapotecas faz a gente
prazenteira a vida inteira e aí.

Amanheço de começo e reconheço este teto, o nome,
meu epíteto eu esqueci hoje. É um domingo, são
duas quintas-feiras? O espírito sabe pronde vai,
recusa-se me contar, adivinhar não posso.

Acho que vi um além do porto, o horizonte continuando
além do corpo. Insisto em saber o que acontece
ali, onde só vê aquele que tem mais de
centoequarentaesete pontos de fuga na íris. Ergo,
logo canso. Cogito e registro: estou acordado.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Dançando Filosofia



Minha aproximação da filosofia durante a faculdade foi feita de forma estética. Isso só percebi depois. Os autores me interessavam, antes mesmo do que pelas ideias, pelo estilo, pela prosa criativa que dava vida ao pensamento. Só depois de saborear as frases, cheirar conceitos e olhar com calma  as curvas de uma teoria, é que eu acertava o passo com o conteúdo em si. Escrevo agora no pretérito, mas ainda faço desta maneira. Assim foi com Platão, Santo Agostinho, Voltaire, Rousseau, Heidegger. Sem contar o poetas que cantam no coro dos pré-socráticos.

Sentia, durante o curso, falta de entender a filosofia não só conceitualmente, racionalmente, mas também por afetos e percepções. Não que me fosse podado (embora a Academia, como seus senões, tira a poesia de qualquer coisa), mas a sisudez do assunto assustava qualquer intenção de riso-reconhecimento. Foi então, numa destas reuniões tediosas, com Kant se embaraçando nos próprios argumentos, que entrou pelo salão, com um caos dentro de si, feito uma estrela dançante, que entrou Nietzsche, com seu bigode que me lembrou Leminski. O filósofo alemão rodou, cantou versos dionisíacos e me chamou pra dançar. Demasiado humano, saí pulando no baile. E no mesmo pulo, a filosofia contemporânea também decidiu dançar e surgiram coreografias as mais espantosas: o passo de Foucault, o caminhar de Walter Benjamin, o "tô nem aí" de Wittgenstein. Só então entendi: minha filosofia era uma filosofia de artista, feito a do bigodudo alemão. 

Meus passos dançantes me levam agora ao encontro de Deleuze, que além de me soprar fluxos dadaístas de pensamento, ainda me incentiva a continuar no devir. Sua filosofia tem alimentado meu fazer artístico de tal modo que voltar atrás é impossível. É preciso sempre novos movimentos para não perder a graça da dança. Afinal, o que mais há de se fazer?