sexta-feira, 1 de junho de 2012

Longa Metragem - Capítulo IV


No amor e na guerra foi o segundo filme de Jandira. Este, mais do que o primeiro, firmou a paixão de todos os homens por ela: a famosa cena dos seios poéticos estava lá. Desta vez as autoridades da cidade apressaram-se em trazer o filme para o Cine-Teatro Imperial. Nunca a ansiedade por uma estréia causou tantas brigas: esposas ameaçavam separas-se caso os maridos fossem assisti-lo, pais proibiam os filhos de sequer mencioná-lo.
No primeiro dia, famílias inteiras estavam na fila.
Apesar de curioso, não consegui maneira de assistir aos seios, não, ao filme de Camille, não, de Jandira; na cidade ela era tratada pelo original, como se todos fôssemos muito íntimos dela. Eu desejava era ser íntimo de Dulce. Sempre com um livro na mão, reparei que o autor invariável era Dostoievski. Era isso, minha chance de parecer mais interessante a ela. Fui à biblioteca decidido a ser um grande entendedor do russo. Ou isso ou eu acabaria roubando um beijo da professorinha. Não seria de todo ruim um carinho apanhado de surpresa, sem a sua anterior aceitação. Esta idéia veio por terra quando o único livro que encontrei encampava o título: Crime e Castigo. O retrato caiu de suas páginas amareladas e eu acho que já disse isso.
Não disse então o que aconteceu nas semanas seguintes. Os jornais da capital anunciaram que Jandira estava no Brasil, em rápida visita ao Rio de Janeiro, apenas o suficiente para promover o novo trabalho, sem qualquer possibilidade de esticar a viagem. Não tinha planos de voltar à cidade natal, ao menos não desta vez. Alguém cogitou a possibilidade de renomear a praça central com seu nome, convidando o governador e, logo, exigindo sua presença. O prefeito foi o primeiro a apagar esta idéia, definitivamente ela se manteria arredada. Nem por isso os itaponguenses deixaram de falar seu nome, estampar sua imagem em diversos álbuns de recortes. O meu escondi na carteira, onde poderia ver a pele da atriz toda vez que pegasse dinheiro ou fingisse fazê-lo. Passei dois dias sem sono e outros tantos sonhando com os seios dela, acordando aflito com a possibilidade de dizer alguma besteira enquanto dormia e meu irmão pequeno ouvisse. A foto não era tão nítida, além de mostrá-la de perfil, de modo que eu não poderia dizer que os seios de Jandira eram poéticos, mas sabia que, no mínimo, eram epifânicos. Em seu colo seria possível construir um estado permanente de êxtase, o seu toque tinha mais vida, minha vida, nos seus seios, mais amores.

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