quinta-feira, 14 de junho de 2012

Longa Metragem - Capítulo V


Ouvia o rádio num fim de tarde frio quando uma música gritante interrompeu a calmaria e a voz chorosa do locutor anunciou: Camille Delacroix, a revelação francesa e rainha de Itaponga do Norte, acaba de morrer. A atriz vinha de surpresa para a cidade quando o carro em que estava derrapou e capotou, levando a vida de nossa...ai! O homem não conseguiu dar prosseguimento, no que foi substituído por um outro não menos nervoso: Jandira queria visitar a cidade sem chamar atenção, pois pretendia saudar o túmulo do pai com toda tranqüilidade possível. O cinema acaba de...ai!! Música francesa ressoou pelas casas, misturando-se aos muitos ais e gritos. Quando enfim ela pisaria em solo nosso, os céus decidiram tomá-la de volta. Percebíamos o quanto estas frases eram cafonas, mas o momento permitia tudo, até a rápida aceitação de fazer uma placa com seu nome na praça central. Foi o padre quem teve a idéia mais cabível: o justo seria erguer um busto. A prefeitura se preparou para enviar uma grande quantidade de flores para o enterro na França. Não teve, ou ninguém viu se teve estrela em Itaponga do Norte naquela noite.
Os galos ainda tomavam ar para apregoar a manhã no instante em que muitos carros chegaram de uma vez. Eram repórteres de todo o país que vinham registrar a amargura coletiva. Todos os moradores apareceram com seus lutos, desfilando lamentações e rezas. Eu assistia de longe, desacreditado da idéia estúpida que é nascer para morrer, não ser permitido ao menos uma extensão maior no tempo ou uma fidelidade maior da memória: estar ali, naquele momento, parecia a possibilidade mais absurda de existir. Vi quando um repórter perguntou a dona Agripina: o que a senhora acha da decisão da família de Camille em fazer seu enterro aqui, ao lado do pai? A notícia chegou a todos os ouvidos antes que ela respondesse. Um início de sorriso apareceu na boca da entrevistada, que não se conteve e correu aos berros,abençoando a visita eterna de Jandira.
Não fossem os sentimentos conturbados que eu tinha no momento, juraria que a cidade estava em preparação de festa maior do que a da padroeira. O busto ficou pronto num átimo, a praça foi rebatizada e, na dúvida entre Jandira Pereira da Cruz e Camille Delacroix, optou-se por nomeá-la com o primeiro, deixando o segundo para a rua paralela. O cemitério foi inundado por jovens viúvos, alguns contando de seus rápidos namoros infatis com a falecida, o que todos sabiam ser mentira, mas concordavam reafirmando com a cabeça. O Jornal do Norte lançou uma edição especial, com todas as fotos da garota exposta pelo pai, sua biografia e até um histórico bilhete com suas primeiras letras. Secretamente eu desejava que ela fosse velada com os seios expostos. Percebi um diz-que-diz repartindo comigo esta vontade, o que não diminuía a culpa me assombrando, amortecida num ligeiro copo de cachaça. No coreto, a banda apresentava a canção que o maestro Samuel compôs com violoncelo e pesares, entoando palavras arrastadas que mais pareciam uma ladainha de dia de finados, repetindo o nome de Camille, agora aos pés da cruz. Assistia tudo da calçada, sem foco certo para o olhar. Senti meu corpo sendo puxado e arrastado em direção ao Imperial, sem muita vontade de entender meus movimentos. Ali, uma arruaça sem tamanho, catarse coletiva feita de brados, rezas, risos, gozos e músicas esperava pelas sessões liberadas do filme. Qualquer um poderia, enfim, ver o tesouro de Jandira. Inclusive eu. Passando ao lado, Dulce encarou-me como nunca, dizendo com o andar o que eu esperei por meses. E os seios de Jandira me chamando. E as pernas de Dulce me convidando. Ela entrou na fila, portanto fiquei. Vi as primeiras cenas, um soldado escrevendo cartas no front, o sorriso de Jandira, o encontro deles. Ao meu lado, sem deixar escapar um olhar furtivo, Dulce brincava com os dedos na saia, puxando o tecido até o alto das coxas. Senti o arrepio que sua pele me transmitia e prendi minha expectativa em suas pernas. Num sobressalto, voltei à tela que já mostrava Jandira vestida: não aconteceu, finalmente, a revelação do mundo em movimento para mim.

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