terça-feira, 26 de junho de 2012

Longa Metragem - Capítulo VI

À saída do cinema fui assaltado pela chegada do ataúde, passando no carro fúnebre em direção à capela onde seria velado. A cidade andou atrás, numa marcha de atravessar deserto em busca da terra prometida. Aplausos quando a esquife apeou, sendo colocado em seu devido lugar, os Peres da Cruz mais próximos. O padre ululou um lamento clamando a glória no céu, no céu, com minha mãe estarei. Máquinas barulharam registros. Em seguida, um silêncio denso pesou no santuário, alguém ecoou o pensamento: abram o caixão. Os parentes se entreolharam, escolheram o primo do jornal para declarar: caros amigos de Itaponga do Norte... A morte levou a beleza de nossa Jandira, sugou sua alma formosa para os rincões dos campos augustos do éden, alimentando o mito que há de acolher-se em nossos corações!
Um tio velho levantou-se bruscamente e disse sem alterações na voz o que não era entendido por duas centenas de olhos. O acidente, sendo por demais horrível, desfigurou o corpo de Camille, exigindo o lacre eterno do esquife. As vozes que ainda sussurravam pelo ambiente desmancharam-se em suspiros. Escolhendo a melhor palavra para encomendar o espírito, o pároco voltou ao seu lugar, narrando uma parábola sobre qualquer coisa que não foi apreendida pela multidão que se esvaia cautelosamente, certos de que os seios de Jandira se acabavam para este mundo; por fim, apenas os Peres da Cruz, eu e mais duas ou três dezenas de pessoas apáticas assistimos ao sermão.
Na hora do amém, me aproximei do caixão com passo vacilante, atento aos entalhe da madeira coberta de flores, e depositei à altura o retrato de seus seios, trocando-o por um botão de rosa carregado de vermelho: talvez Dulce ainda me esperasse.

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