Artes Visuais

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Criatura do Mundo

os cães
na lida da pele
tomam goles de sol
habitam o agora
apagam pra ver

cínicos
se assombram
no prazer
do puro prazer

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

João Cabral de Melo Neto

CATAR FEIJÃO

 

1.

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

 

2.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

PAUL CELAN -

Ilegibilidade deste
mundo. Tudo em dobro.

Os fortes relógios
dão razão à hora cindida,
roucos.

Tu, presa nas tuas profundezas,
somes de ti
para sempre.

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Quem arranca do peito seu coração para a noite deseja a rosa.

São seus a folha e o espinho,
para ele ela põe a luz no prato,
pare ele ela enche os copos com sopro,
pare ele murmuram as sombras do amor.

Quem arranca do peito seu coração para a noite e o atira alto:

Não erra o alvo
apedreja a pedra,
e ele bate o sangue do relógio,
para ele sua hora soa o tempo na mão:
ele pode brincar com bolas mais bonitas
e falar de ti e de mim.

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do livro Cristal.  
Tradução de Claudia Cavalcanti.
Ed. Iluminuras.