domingo, 24 de agosto de 2014

PASSAGEM

Mira Schendel
Sem quem, estes me sou
quando do dilúvio em desertos,
filho dileto nos retornos
saturnais e perplexos.

Aqui me tomo logo longe,
hoje sonho onde fui som
desenhado na palma da rocha.

Berro uivos incandescentes,
protestos de alarmar avenidas.
Aliás, os levantes das manhãs
unguentam as feridas e o dia
é de feriado: lembrança de minha
milésima encarnação.

Provo mitologicamente
a existência apavorada de santos
embutidos em garrafas e festas,
questão de fé em todo passo dado
a partir de mapas traçados desde o ínfimo.

(Claro que desconfio de geografias
arraigadas no universo-vácuo: o
absurdo original não seria assim
tão explícito quanto um coração ou
uma centelha animal vibrando
entre os lapsos de humanidade).
Mas tenho parte com as faces do Enigma.

Somado a isso é o ônibus vindo,
a hora chamando assomos
o trabalho de parto constante
doendo de tanto rir e um bocado
de gente atravessando ruas em mim.

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