sábado, 22 de novembro de 2014

Gnomos

Acreditava em gnomos. E de acreditar, jurava vê-los correndo pelas gramas da praça ou, ainda mais fantástico, pela baça lente de uma luneta apontada para a lua. Não me lembro de enxerga-los, mas a história virou lenda familiar, repetida tantas vezes a ponto de confundir imaginação e lembrança que formei a partir das narrativas alheias. E nunca houve, para minha felicidade, um adulto que desmentisse a existência dos seres mágicos. Ao contrário, estava cercado de pessoas que incentivavam minha imaginação com mais detalhes, perguntas que estimulavam meu falar. De certa forma, a criança inventiva dava permissão para que os mais velhos liberassem um sentimento lúdico que andava preso pelos anos e pela rotina do concreto.

Ouvi dizer que era preciso deixar uma maçã em um canto da casa para que os pequeninos se alimentassem. Na verdade, não sei se ouvi mesmo esta instrução ou se é mais uma memória construída com ficções. Sei que gravou-se em mim a imagem de uma maçã murchando sob o móvel antigo que atulhava o estreito apartamento. Nossos cômodos tinham móveis rústicos, quase sempre de um marrom escuro (ou seria isso efeito do filme antigo dos meus olhos-registradores?) e uma fina camada de poeira eterna. Não tenho certeza, acho que jamais observei mínimas pegadas. O que só aumentava meu fascínio pelos duendes. Ou gnomos. Só anos mais tarde descobri as diferenças entre eles, porém sempre preferi chama-los de gnomos. Gostava do som da palavra, o choque de consoantes no início, a repetição das letras o’s.

Meu pai trabalhava em uma loja de móveis usados, o que justificava o apartamento então novo mobiliado com objetos antigos. Creio que esta decoração não planejada apontava já meu futuro interesse por ruínas, por vestígios de vidas gastas. Quando um móvel não acompanhava a mudança de gosto da pessoa, lá iam os funcionários da loja buscar na casa do cliente o trambolho. Vez ou quase, um deste objeto surgia como encaixe perfeito para uma parede vazia e uma necessidade cheia, então meus pais ficavam com o móvel por um desconto no salário. E sempre era possível encontrar um brinde, algo deixado pelos antigos donos das gavetas: falsas bijuterias, dinheiro sem valor, retratos.

Rememoro um final de tarde, voltava para casa com minha mãe e meu irmão. Eu balançava entre os seis e sete anos, passava o dia todo na escola, sondando letras. Ainda as descobria e já sentia prazer em observar suas curvas. Aquela terça-feira desabava em chuva, ritmava o barulho da galocha que usava em dias assim, calçado coaxando enquanto subia todos os degraus até o último andar. Meu pai abriu a porta mal chegávamos à sua frente. Tinha o rosto espantado, vigiava por trás de nós, olhando paredes e chão:

- Você não imagina o que aconteceu.

Não esperou que eu perguntasse, tamanha euforia em dar a notícia:

- Quando eu cheguei agora há pouco, abri a porta do apartamento e cinco gnomo saíram correndo, passaram por baixo das minhas pernas e desapareceram na escada. Quando fui ao seu quarto ver porque ele vinha de lá...

Entrei sem pressa de ver o que me aguardava. Estava atento ao relato, minha fantasia se desdobrava na correria dos diminutos entes. Meu pai indicou o caminho, sugerindo que eu fosse descobrir o que tinham deixado para mim. Sob a minha cama, uma pilha de livros fabulosos: Aladim, Peter Pan, Alice no País das Maravilhas. Abracei cada um daqueles livros, ignorei o cheiro de guardado que traziam impressos em suas páginas. Passava os dedos com calma sob as ilustrações, investigava com cuidado as sensações gráficas que um bloco de texto me dava. Aqueles livros, enquanto objetos, foram minhas primeiras sensualidades. Ainda hoje, quando encontro um livro excitante, leio com todos os sentidos despertos. Sou atraído por encantamentos. Porque em algum lugar em mim ficou a discreta crença de que gnomos é que são os verdadeiros editores.

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