domingo, 25 de janeiro de 2015

As Curvas


Claro que sou habitado por memórias, imagens nômades que se confundem nas datas, lembranças que me chamam até a janela para ver o desfile do passado. O que não significa que seja saudosista. Não tenho maior pareço por idades passadas que pela atual. Cada qual com sua índole. Imagino as recordações todas colocadas em um mapa topográfico, carregado de curvas, tantas e tais que é impossível se perceber detalhes. Então, para que não se percam todas no emaranhado do tempo, estacas são colocadas para destacar algumas delas. A escolha é aleatória, nem sequer imagino quem ou o quê lança essas marcas. Quando percebo, já estão ali, pedindo atenção. Esta aqui, por exemplo, mostra um menino de 12 anos com seus brinquedos, cavando túneis em montes de areia. Não era difícil encontrá-los, estavam por toda parte no bairro novo. E enquanto eu organizava uma cidade subterrânea com os bonecos (índios, soldados, robôs), meus colegas de idade descobriam outros jogos: muitos já conheciam os sabores e amores de beijos e toques. Eu imaginava ser bom, mas não tinha pressa, estava ocupado demais recriando o mundo. Os corpos iam crescendo e as roupas diminuindo, as festas se tornavam uma opção aos domingos de árvores e tédio. Os meninos davam a entender que eu estava atrasado, que minha infância se prorrogava além do devido. Eu duvidava: ainda tinha muita imaginação. Também ansiava sentir também o calor alheio, mas projetava isso para um futuro abstrato. Almejava um romance de novela, com direito a trilha sonora, alguma das canções que ouvia ilustrando o enredo. A ficção era minha realidade.

Vai daí que eu me apaixonava intermitentemente. Bastava que ela soubesse meu nome, ou que aquela fosse gentil comigo, ou que outra me olhasse por mais tempo e seu nome se tornava minha fixação, a palavra que eu mais repetiria durante o longo trajeto entre um e outro acontecimento, paixões que duravam intensos oito ou nove dias. Enfiado na distração de uma dessas, dividia uma manhã entre observá-la e copiar o que estava na lousa. Alguém bateu à porta e chamou a professora. Logo ela voltava, apresentando:

- Essa é nossa nova colega, Viviane...

Olhei uma primeira vez, passarinho à toa, à toa. Atentei uma vez mais, para cair na armadilha: Viviane, sardas no rosto, menina da fazenda, verde-terra na vista. Ali, algo aconteceu. Meu primeiro alumbramento. A responsável por iniciar os últimos instantes de minha criancice. Por diante, tudo seria diferente. Isso porque Viviane era diferente, nenhuma outra era, então, como ela. Viviane tinha seios. Não que nas demais eles já não iniciavam uma tímida apresentação. Mas nela as curvas se destacavam, pediam calma e euforia, desassossegavam os afazeres. Puxei uma salva de palma, assobios e gritos de glória. A escola decretou feriado e uma parada cívica teve início na quadra. Ninguém notou a festa que se fazia em mim durante a caminhada dela até sua cadeira.

Filho dos zeladores da escola, encontrei minha casa à desertos de distância. Palavra alguma significava aqueles seios. Eu precisava falar com eles. Com ela. Com certeza eu não era o primeiro navegante à avistar aquelas ilhas, era preciso um plano. Tentei montar uma prévia com meus brinquedos, e subitamente eles se transformaram em objetos inúteis. Viviane não quereria nada comigo se me visse com eles: estava decretada a falência múltipla da meninice. Pela última vez enterrei os bonecos, desta vez no quintal, sob o pé de maracujá em flor.

Namoramos, conhecemos outras nações, mergulhei em sua história onde construí um templo. Contei a ela todo esse assomo e ela riu, balançando os ombros e lançando a cabeça para trás. E disse:

- Você está inventando!


Ela sabia. Ou antes, ela nunca soube. Minha timidez permitiu que, no máximo, criasse amizade com seu irmão e frequentasse sua casa. Nunca frequentei seus seios. Eles ficaram como as estacas que impedem essa reminiscência de ser levada pelo vento dos dias. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário