domingo, 27 de setembro de 2015

Tríptico



Edward Hooper
Grafia nua de letras fabricadas - assombrada pela réstia de luz, por um punhado de roupas espelhadas na paisagem da retina - nunca é página vazia. É já mapa que OUTRO desvenda, é pele-texto que alquem fantasia deslindar. É metáfora do tempo.

A pele-texto, um corpo-frase pautado por vírgulas, conjunto hermético de difícil apreensão onde o olho tateia gaguejante à procura de significado. Mas como ler o susto, qual maneira o afeto pode ser abarcado desde a cama, entre o coito que ambaralha cores e idiomas e toma céus desejos culpas anseios? Palavras só cascas abandonadas por caranguejos-ermitões.

Quem de mim ou por mim ou aqui em mim é responsável por esse desenho, esta constituição de cada coisa no lugar, sendo que não há lugar algum? Os poros: milhões de abismos onde OUTRA pele-texto tenta traduzir, sabendo de antemão - pelos pés lábios seios - que algo sempre se perde na tradução. O que foi que me perdi?

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