terça-feira, 26 de abril de 2016

MOVENTE



esta cadeira, por exemplo,
dura madeira no canto da casa
falando com estalos seu tronco linguístico
aparência feito coisa, objeto sem luz própria
fibra de aroeira (sabe-se osso menos nobre?)
foi filete, tábua, fio em território posseiro
passou entre caminhos de água e gente


este móvel, qual corpo estável
fingindo duração nos incômodos
agora é toco manso, amostra de matéria morta
folhas e linhas simétricas nas setas do equilíbrio
cavalo fincando quatro pés nos ângulos da pedra
tecida à cedro, cerejeira (há de ser pinha, freixo)
aparente nicho da carne em perda ou descanso


isto, que carrega o arcano
sagrado de quem se nega ao espelho
é ainda o mesmo espírito queimando idioma indígena
xamã em trânsito por encarnações do estranhamento
ser na beira de outras fomes, alma a desfamiliarizar
formas de mostrar aos mistérios domados nos olhos
a deusa bailarina que anima os nomes da desordem



* este poema está impresso no programa do espetáculo A MACIEIRA

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