quinta-feira, 4 de maio de 2017

Leituras: Diário de Sonhos, por Franz Kafka

Quando estava deitado hoje à tarde, alguém rapidamente virou uma chave na fechadura e por um instante senti fechaduras no corpo inteiro, como se estivesse vestido para um baile a fantasia; o tempo todo abriam ou fechavam uma fechadura, ora aqui, ora ali.
30/08/1912

(...)

É muito tarde, minha cara, e ainda assim vou dormir, sem merecer. Bem, dormir mesmo não vou, mas apenas sonhar. Como ontem, por exemplo, quando no sonho eu andava até uma ponte ou um cais em cuja amurada por acaso havia dois telefones; eu levava os fones ao ouvido e ficava pedindo notícias dos “confins do mar”, mas do telefone só vinha o bramir do oceano e um cântico sem palavras, triste, impressionante. Mesmo depois de perceber que nenhuma voz humana conseguiria sobrepor-se a tais ruídos, não desisti e ali fiquei.
23/01/1913

(...)

A janela estava aberta, em meus pensamentos eu me jogava da janela de quinze em quinze minutos, continuamente, aí vinha um trem, os vagões iam passando sobre meu corpo estirado nos trilhos, aprofundando e alargando os dois cortes, no pescoço e nas pernas.
28/03/1913

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Ontem, antes de adormecer, pela primeira vez me apareceu um cavalo branco; tive a impressão de que ele saiu da minha cabeça virada para a parede, passou por cima de mim e saltou para fora da cama, sumindo.
27/05/1914

(...)

Visto da perspectiva da literatura, meu destino é muito simples. O impulso de representar minha vida onírica deslocou todo o resto para um plano secundário, que definhou assustadoramente e não para de definhar. Nada mais poderá me satisfazer, nunca.
06/08/1914

(...)

Por que se compara o mandamento interno a um sonho? Seria o primeiro como o segundo, absurdo, desconexo, inevitável, exclusivo, portador de alegrias ou medos infundados, incomunicável enquanto um todo e exigindo ser comunicado?

Tudo isso: absurdo porque só pode sobreviver aqui se não lhe obedecer; desconexo porque não sei quem o ordena, e com que objetivo; inevitável porque me pega se surpresa, tão desprevenido quanto os sonhos assolam quem dorme, embora quem se deita para dormir deveria saber que vai sonhar. É exclusivo, ou assim parece, porque não posso concretizá-lo, não se mistura à realidade e por isso não pode ser repetido; provoca alegrias ou medos infundados, aliás muito mais estes do que aquelas, e pelo mesmo motivo exige ser comunicado.
07/02/1918

(...)

Insone, quase completamente; atormentado por sonhos como se eles tivessem sido entalhados em mim, um material resistente.

03/02/1922

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