AGRADECIMENTO
Agradeço o vento esquivo que me varreu do mundo: ele me deu a perplexidade, o olho sem pálpebra e um coração abissal para ressoar a imensidão da noite sem resposta.
.Juliano Garcia Pessanha, em "InstabilidadePerpétua".


Em Marte tem um neném.
Uma manhã...
hã? Menino ou menina?
Não importa o nome
ou se é mulher
ou se é homem.
Importante mesmo é que é
um neném!
Ocupando a inteira metade
daquele mundo longe
a criança dorme
por muito tempo
e quando, lentamente,
amanhece seus olhinhos
(imensos),
a primeira intenção
é urinar, mijar, desaguar
divertidamente...
Mora sozinha, a criança:
não se conhece parente
a origem, ou mesmo o destino.
Se vem de Mercúrio
Netuno ou Plutão,
é uma informação
que o poema não encontrou.
De noite, quando tem fome,
carinhosamente
a Via Láctea o amamenta
enquanto Saturno canta
um ninar que embala,
transformando o sono em sonho.
Uma manhã, levantando
as pernas e o nariz,
reconheceu-se uma grande pessoa
no universo que desenhou
quando era
neném em Marte.
Enigma
.
Com olhos de abismo, ela sussurrou:
- Decifra-me ou devoro-te.
Ele não a decifrou.
Mas anda muito feliz.
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Memórias no guardanapo
.
Uma corda arrebentou. Não estava preparado. Toquei a noite inteira sem mi.
*
Pedem samba, eu tenho. Popular? Mando três. Música de amor, hoje não, que me dói o coração.
*
Toco a noite com meu violão. Ela diz que está com a cabeça cheia de estrelas. Vira pro lado e dorme. Então improviso um solo.
*
Hoje acordei distante. Saía de um sonho confuso, cheio de culpas e gestos de carinho. Levantei tentando me esconder, mas da árvore que beira a janela da cozinha, a multidão de pássaro denunciava: bem-te-vi, já-te-vi. Passarinho filho da puta.
*
Ela não ligou. Fiquei rouco. Não fui trabalhar.