segunda-feira, 7 de abril de 2014

AS DOBRAS

Aqui mais um pedaço de lapso, um capítulo, um esboço, um riso, um risco de um futuro-talvez-romance:

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A casa era um labirinto. O quintal todo cimentado aguardando um carro que nunca chegava servia de abrigo à formigas, bicicletas e Senhorzinho, um pinscher desbotado pelo tempo que mal se aguentava nas patas. Nas reminiscências de Murilo o cão sempre esteve na casa e sempre fora velho. Como a avó. O tempo não passava na casa embaraçada e o sofá de tijolos e cimentos que nunca mudava de lugar atestava esta evidência. Casebre mal armado na adolescência de Lindalva, o templo cresceu desenfreado conforme os casamentos familiares forçavam novos cômodos. Um corredor que fazia curvas levava, para além da cozinha sempre alaranjada, aos dois quartos da primeira geração. Logo se pensou em verticalizar o dédalo, dispondo a família de parcos recursos mas variados braços. No segundo patamar fez-se tortuosamente quarto para crianças, quarto para dispensa, quarto para casais que amiúde habitavam e não a residência, deixando reticências na narrativa familiar.

A casa era um labirinto.

Tamanho grupo era afeito à proporcional barulho. Festas de receber desconhecidos, pedaços de carne dançando ao calor das brasas no churrasco. As cinzas dos dias seguintes se enredavam por ruas e levava casa saúde assunto depressão sobrenomes.

No fim só ficou Lindalva, as plantas, o marido combalido e Senhorzinho. Visitas viraram turismo de fim de ano.

O marido se foi. As plantas secaram. As rugas quedaram os olhos. A vida se bestava na norma.
Então chegou o menino. Retardado, diziam os tios. Também pudera, amorteciam os primos de graus já avançados, é pequeno, mas entende o que aconteceu. Eu fico com ele, agarrou Lindalva. Ela também pouco de falar, não por aperto de palavras que em verdade mal se guardavam na boca

(desconfiava da precisão destas, cuspia uma ou outra metáfora que era sempre recebida como gracejo e angariada para ser retrabalhada em futuro paladar frasístico; desejava ser sábia, mesmo com a séria desconfiança de que não passaria de uma piadista, à sua revelia)

,entedia o neto à medida em que se sabe que entender alguém é sentir-vibrar via afetos os hábitos que fiam cada respiração. Murilo fazia suspiros que relatavam cada ponto de seus pensares e isto bastava à Lindalva.

Acendia velas sem saber para quais entidades enquanto o menino construía asas de cera por instinto de sobrevivência.


A casa era um labirinto.

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